Homenagem aos cachorros


É certo que em São Félix do Araguaia
podem-se ouvir nitidamente
os latidos misteriosos dos cachorros
nas noites de luar
sertanejas
estreladas.

É preciso saber que no sertão
os cachorros formam sindicato independente
- nem atrelado nem pelego -
e têm entrada franca a qualquer hora
em qualquer parte:
igreja
açougue
delegacia ou hospital.

E ninguém
a não ser um estranho
ousará interromper sua marcha
quando resolvem desfilar pela rua principal
tomando posse da cidade.

Porque uma coisa é verdadeira:
todo o povo sabe que em São Félix do Araguaia
quem manda não não é o prefeito
são
é claro
os cachorros.

Sem eles a vida fica morta e sem ritmo
como orquestra onde falha o diretor.

E quando em assembléia
decidem todos paquerarem juntos
qualquer cadela ingênua
nessa noite
na cidade ninguém dorme.

Há cachorros de tudo quanto é cor
raça e tamanho
sendo a fome o fator integrador mais eficaz
- sociedade sem classes em pleno século XX.

Tem um
por exemplo
com três patas apenas
coitado!
nunca olha a rua de frente
caminha em diagonal.
A maioria não tem rabo
humilhação maior é impossível
pois um cachorro sem rabo perdeu a dignidade.
Outros são alejados
caolhos
quase todos maltratados por doenças invisíveis.

Eles recebem o hóspede que chega
são eles os que acompanham ao cemitério quem morreu
eles são os que transmitem de porta em porta as notícias
e cheiram no ar a chuva repentina.

Não têm dono
são de todos
propriedade coletiva da cidade
e é por isso que entram
saem
comem
e dormem
onde bem entendem.

Sem despertar as suspeitas do Governo
os cachorros
estão infiltrando o comunismo no sertão.


GABRIEL, Paulo. Utopia. Belo Horizonte: Santa Clara, 2000. p. 72-77.

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