TEXTOS DE PAULO GABRIEL

1980 - Poemas de Periferia
1983 - A Fragilidade da Terra
1986 - Palavra de Sábado
1991 - Clamor Continental
1996 - Memorial do Corpo
2000 - Utopia
2001 - Olhos velados de bruma
2004 - Nesta noite eu conspiro


Título: Em desnuda oração - Salmos da rua
Autor: Paulo Gabriel
Paulinas Editora


"Obra recolhe e expressa, ora em um clamor, ora num tenso silêncio, todas as variantes vitais de um coração humano."
Pedro Casaldáliga


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Tudo é material de poesia para o sacerdote Paulo Gabriel: as paisagens do rio Araguaia, os pássaros, as águas que vão e vêm, as mãos calejadas do camponês, o olhar inquiridor do menino, vítima de crueldade... E o melhor desse material foi reunido na obra Em desnuda oração - Salmos da rua, textos que exprimem a alma lírica do autor, sua admiração diante do mundo, sua relação com Deus, suas dores, alegrias e frustrações à vista dos problemas sociais e cotidianos. Revelam ainda a solidão que se apodera do ser humano em determinadas situações e como a natureza é capaz de despertar as emoções.
Com um estilo comum ao dos místicos cristãos, os poemas apresentam características próximas dos salmos; alguns são verdadeiras orações ao Deus sem nome e de todos os nomes; há versos que falam do amor cósmico, dos desejos da carne, da utopia de uma vida mais justa; todos levam à reflexão, pela beleza e profundidade. Já tão rico, o livro ganha linhas de Dom Pedro Casaldáliga (bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia - MT) e prefácio de Leonardo Boff, duas personalidades que dispensam apresentação.
(Texto disponível em: http://www.paulinas.org.br/imprensa/sl_press_release.aspx?ItemID=766 Acessso em 19 de novembro de 2010)

Ficar


No limiar da fantasia
arde o corpo
porque infinito é o desejo
e pede tudo.

Decifrar o enigma que é a carne
unir-se no abraço
como se agora começasse o mundo
caminhar pelas veredas do medo
e da ansiedade
aprender com dedos inseguros
o alfabeto do amor que se irradia
nos lábios que se tocam
na pele que se abrasa.

Frágeis somos quando amamos!
Frágeis e divinos!
Atração e luz
tudo na terra é comunhão.

Parte somos de outras vidas
e porque o amor gera unidade
eternos nos tornamos no
espelho do outro rosto.

Antes de sentir seu corpo
é preciso desnudar sua alma
abrir-se devagar ao mistério
que nos cerca.

E porque o amor é pão e
travessia
há fascinação e encanto no
ficar
mas isso é só começo.

Quem criou a pedra
fez também nossos olhos
que extasiados miram
e é por isso que nasce no
coração tão frágil
a busca para unificar o ser.

Aprender a amar vendo-te
por dentro
é isso o que eu quero
medir a curva do seio insinuado
sentir a energia explodindo
lá onde a vida nasce.

É preciso delicadeza e
tempo para saber tocar-te
amadurecer sem pressa
para poder usufruir do gozo.
Sagrados somos.

Resgatar a pureza que nasce
da luz que nos habita
isso é amar!

É porque a paixão me faz buscar-te
sei que se me encontrar te encontro.

Perdido nos teus braços
Deus nos abençoa
Se teu beijo me queima
arde em mim a liberdade
E se me entrego por inteiro
a morte foi vencida.

Percorrer os caminhos que levam
ao amor
é adentrar nas profundezas
interiores
fletar com as palavras essenciais
como quem costura a madrugada.
Cozinhar a fogo lento corpo e alma
sem urgências exteriores
na busca do tesouro
escondido atrás
das pálpebras.

Eu não creio na tristeza
nem creio no fim de tudo que
respira e vive
não
não creio no desamor nem na
morte eterna eu creio.

Creio na vida
sim
e é por isso que afirmo que
a carne ressuscita
e somos carne
carne acesa pela chama do amor
barro onde o sopro de Deus pousou.

Não creio que esta brisa
beijando agora teus cabelos um dia
acabe
nem creio que esse brilho nas pedras
do caminho
venha a se apagar quando meus
olhos já não vejam mais
teus olhos.

Pó de estrelas somos!
E sei que te amar agora
nunca mais deixará de haver amor
e digo que se por ti sou atraído
quem fez a vida me semeou dentro de ti.

Lúcido afirmo
eu creio no amor eterno
e é por isso que quero me
aproximar de ti
livre como as águas na
imensidão do horizonte
eu sagrado
tu sagrada
fazendo de nosso encontro a
aventura maior do universo.

GABRIEL, Paulo. Ficar. Belo Horizonte: Santa Clara, 2000.

Cotidiano

Dói a garganta
pelo grito que não gritei.

Pararam os pés
cansados de abrir caminhos.

Tremem as mãos
que outrora teciam a aurora.

Meu corpo ressente-se
da luta mais inglória

cotidiano.

Homenagem aos cachorros


É certo que em São Félix do Araguaia
podem-se ouvir nitidamente
os latidos misteriosos dos cachorros
nas noites de luar
sertanejas
estreladas.

É preciso saber que no sertão
os cachorros formam sindicato independente
- nem atrelado nem pelego -
e têm entrada franca a qualquer hora
em qualquer parte:
igreja
açougue
delegacia ou hospital.

E ninguém
a não ser um estranho
ousará interromper sua marcha
quando resolvem desfilar pela rua principal
tomando posse da cidade.

Porque uma coisa é verdadeira:
todo o povo sabe que em São Félix do Araguaia
quem manda não não é o prefeito
são
é claro
os cachorros.

Sem eles a vida fica morta e sem ritmo
como orquestra onde falha o diretor.

E quando em assembléia
decidem todos paquerarem juntos
qualquer cadela ingênua
nessa noite
na cidade ninguém dorme.

Há cachorros de tudo quanto é cor
raça e tamanho
sendo a fome o fator integrador mais eficaz
- sociedade sem classes em pleno século XX.

Tem um
por exemplo
com três patas apenas
coitado!
nunca olha a rua de frente
caminha em diagonal.
A maioria não tem rabo
humilhação maior é impossível
pois um cachorro sem rabo perdeu a dignidade.
Outros são alejados
caolhos
quase todos maltratados por doenças invisíveis.

Eles recebem o hóspede que chega
são eles os que acompanham ao cemitério quem morreu
eles são os que transmitem de porta em porta as notícias
e cheiram no ar a chuva repentina.

Não têm dono
são de todos
propriedade coletiva da cidade
e é por isso que entram
saem
comem
e dormem
onde bem entendem.

Sem despertar as suspeitas do Governo
os cachorros
estão infiltrando o comunismo no sertão.


GABRIEL, Paulo. Utopia. Belo Horizonte: Santa Clara, 2000. p. 72-77.

APRESENTAÇÃO



Paulo Gabriel é poeta, de fôlego maior, no meu entender amigo, e por isso, mesmo, perdoavelmente suspeito.
[...]
Literalmente, Paulo Gabriel é antes de mais nada, um lírico, sensivelmente humano, lavrador de intimidades.
Literariamente é uma despojada retórica, um olhar descrtitivo, quase naturalista por vezes. Cinematograficamente seria neorrealista.
Paulo Gabriel é religioso. Seus poemas também são religiosos. Dessa religião de Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Filho do Homem, que se faz vida cotidiana, opção pelo Reino, parcialidade evangélica pelos pobres, serviço e riscos históricos.
[...]

D. Pedro Casaldáliga
Bispo Emérito de São Félix do Araguaia - MT